"Ela era estrela, era flor do sertão. Era pérola d'oeste, era consolação. Era amor na boléia, eram cem caminhões, mas ela era nova, viçosa, matriz. Era diamantina, era imperatriz, era só uma menina de três corações." (Chico Buarque/João Bosco)

Pequeno estudo sobre os olhos teus

Brilham como estrelas. Esconde o céu nos seus blue eyes, rouba a noite e a lua, pede emprestada a beleza delas e põe-nas no seu olhar. Seus olhos me fascinam. Sinto que sou uma cientista estudando cada rotação, cada explosão, cada pedaço de chão e de planeta que possa existir neles.

Penso na possível existência de vida nas suas pequenas pupilas, nas suas íris cor de azul e nas suas córneas. Percorri todos os livros atrás de olhos como os seus: não achei, não vi. Seus olhos são misteriosos. Achei Netuno e perdi horas divagando se os seus olhos clonaram a cor do planeta azul.

Vezes te pego olhando para o céu, distraído e indeciso: pensando em qual estrela irá trazer para o seu olhar. Concluo, então, que os seus olhos são brilhantes cometas enfeitados de estrelas percorrendo a Via Láctea em uma chuva de meteoros de fogo violeta. Assim, todas as galáxias se concentram em um só lugar: nos seus olhos que são a casa das estrelas.

(Thayane Thandra)

“Perca-se naquele sorriso enigmático, decore ele, o que diz, o que pede ou o que esconde. Perca-se na marquinha escondida no braço direito, pergunte-se sobre ela, descubra. Perca-se no sonho do outro, viaje com ele na loucura, adentre o mundo novo. Perca-se na tarde de domingo entre os cobertores no inverno mais bonito que já passou e a neve nem precisou cair. Perca-se também no calendário, não precisa lembrar se é janeiro ou julho: perdido você está e perdido quer continuar. Perca-se nos olhares também perdidos, aflitos, felizes, convidativos, claros ou escuros: suas histórias e seus planos. Perca-se na voz cantando “depois de você os outros são os outros e só”, porque é bom, é bonito, é você e só. Perca-se na sensação de estar partindo, mas descobrir que tudo é uma grande chegada, ou vice-versa: perca-se na lógica e na dúvida do outro. Perca-se na paixão, que seja vermelha, rosa, azul, verde: nas cores que viram amor quando se misturam e perduram. Perca-se no jantar à luz de velas, que é brega, mas tudo já está tão perdido que fica romântico. Perca-se na música que fala por vocês, na foto colocada no fundo de tela do celular, na primeira carta, no primeiro abraço, no último segundo lado a lado. Perca-se na vontade de ser de novo e outra vez tudo o que são juntos.”
(Camila Costa)

E na primeira manchete do jornal dizia:

morreu de poesia

amava uma mulata 
de perfume e roupa barata
e aquilo que sentia: 
o papel descrevia
a mulata o rejeitou
e o papel cheio de dor
do décimo quinto andar
sem pestanejar:
se jogou. 

Mãe leiteira por onde passo (Dia 2/20)

Por onde andamos, tomamos seu leite que escorre

Do teu cerne, de tua alma que nos recolhe

Por onde respiramos, tua atmosfera; por onde voamos, o teu espaço

Tantas gentes, marcianos - mas sem água que os molhe.

Desvendamos sua terra, oh, mãe leiteira.

Visitamos o teu luar, numa competição de gente besta

Queremos glória, glória, mas ninguém pensou na tua tristeza

Ao saber que lua não era queijo, que não era coisa de se por na cesta.

Mas, oh, mãe leiteira! São tantos os planetas, é tanta magnitude.

Há de haver mais gente santa do que nós, humanos

E eu garanto, mãe leiteria, que seus planetas abrigam gente melhor

Do que os incomunicáveis seres, mais bichos que os marcianos.

Há órbitas no teu espaço, há Sol, há Lua

Como compreendes tanta coisa, mãe leiteira?

Como pode um bicho morto viver nesse espaço frio?

Como podereis viver, como (bem) podereis viver…

Sem a nossa, sem a nossa companhia?

Maximiliano Otremba

(20 Dias de Poesia, Dia 2: “faça uma poesia sobre a Via Láctea”

Amor que desgraça (Dia 1/20)

Um amor que trai, que esculhamba a mil

Que dança pisando no pé, que rasga

O corpo do doente, a pele do gentil

Um amor que aquece, que esfria e que amordaça.

Eu nunca te falei, mas o amor é uma doença

Epidemia que alastra e não liga 

Quando faz vítima atrás de vítima de vítima, eu quero uma!

O amor que me consome tal qual uma lombriga

[que dança, que dança.

O passo do amor é desconjuntado, tão feio e esquisito

Tão fora do compasso, sem ritmo ou batida

O amor é mesmo burro, um grande inseto

A fazer vítima atrás de vítima de vítima, eu quero inseticida.

Eu chamo o amor de filho da puta, de desgraçado

Com todo o ódio humano, meu caro.

Eu amo o amor, com toda a humanidade que Deus me deu;

Eu só o amo porque, como preto no perto, está claro.

Maximiliano Otremba

(20 Dias de Poesia, Dia 1: “faça uma poesia criticando o amor”

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